O relógio na parede marcava duas da manhã, mas o tempo ali dentro parecia ter estagnado em um looping de antecipação. O som do gelo estalando no copo de cristal era a única coisa que ousava quebrar o silêncio denso da biblioteca. Eu sabia que ele estava lá, encostado na moldura da porta, observando a forma como eu fingia interesse nas páginas de um livro que eu já não conseguia ler há horas.
Existem olhares que não apenas veem; eles despem, questionam e dominam. E o dele era exatamente assim. Eu sentia o calor emanando de sua presença mesmo a metros de distância. Era um magnetismo perigoso, aquele tipo de gravidade que atrai você para o abismo com a promessa de que a queda será a melhor parte da viagem.
— Você sempre foi péssima em mentir para si mesma — a voz dele surgiu, rouca, carregada de uma diversão sombria que me fez estremecer.
Fechei o livro com um estalo seco e finalmente o encarei. O contraste da luz da lareira criava sombras angulares em seu rosto, destacando a linha rígida de sua mandíbula. Ele deu um passo à frente, e o espaço entre nós, que antes parecia um oceano, evaporou em segundos.
— E você sempre foi mestre em invadir espaços onde não foi convidado — respondi, tentando manter a voz firme, embora a urgência em meu peito gritasse o contrário.
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, reduziu a distância até que eu pudesse sentir o rastro do seu perfume — uma mistura inebriante de couro, tabaco caro e algo puramente instintivo. Ele apoiou a mão na prateleira, logo atrás da minha cabeça, cercando-me. O toque não aconteceu, mas a promessa dele estava ali, vibrando na pele, causando arrepios que subiam pela minha nuca e se perdiam no couro cabeludo.
A tensão era quase palpável, um fio de seda esticado ao limite, pronto para romper. Minha respiração falhou quando ele se inclinou, o hálito quente roçando minha orelha. Naquele momento, não havia certo ou errado, passado ou futuro. Havia apenas a pressão do desejo, a curiosidade de descobrir se o fogo que brilhava nos olhos dele era capaz de me consumir por inteira ou se eu seria aquela a acender o fósforo.
— O problema de brincar com segredos, Nora… — ele sussurrou, o nome saindo de seus lábios como uma prece profana — …é que, uma vez revelados, eles passam a ser os seus donos.
Eu deslizei minha mão pelo peito dele, sentindo a batida forte e rítmica de seu coração sob o tecido fino da camisa. Se aquilo era um jogo de poder, as cartas já estavam na mesa. Eu não queria ser salva, e ele certamente não tinha intenção de ser o herói daquela história.
A noite era uma criança faminta, e nós estávamos apenas começando a servi-la.
